18 FEV 2021 - São José dos Pinhais - PR - O bispo diocesano Dom Celso Antônio Marchiori, enviou na Quarta-feira de Cinzas uma mensagem para todos os fiéis da diocese de São José dos Pinhais por ocasião do Tempo da Quaresma. Confira a mensagem:

 

 

 

 

 

 


São José dos Pinhais, 17 de fevereiro de 2021
QUARTA FEIRA DE CINZAS

 

Caríssimos presbíteros, diáconos, religiosas, religiosos, monjas e monges, seminaristas, irmãs e irmãos em Cristo Jesus!

Desejo a todos um santo e frutuoso período quaresmal.

QUARESMA É MEIO E NÃO FIM

“Há cristãos que parecem ter escolhido viver uma Quaresma sem Páscoa” (Evangelii Gaudium 6). Com essas palavras, o Papa Francisco nos recoloca no centro e no objetivo da Quaresma: preparar a si mesmo e motivar as pessoas que convivem conosco para a Páscoa, que é o encontro com o Cristo vivo e ressuscitado! Não há sentido em cumprir os preceitos ou os exercícios da Quaresma se não for para essa finalidade.

Todos os anos, lemos no Evangelho e ouvimos em nossas comunidades eclesiais que há três principais exercícios neste tempo quaresmal: a oração, o jejum e a esmola. Pode ocorrer que já tenhamos lido e ouvido sobre isso muitas vezes e ano após ano o sentido destas práticas foi se esvaziando em nós, porque tendemos a colocar o que “sabemos” no “piloto automático”. Há uma potência escondida nesses exercícios que nos coloca, ao mesmo tempo, para dentro e para fora de nós mesmos! Como assim? Explico.

Substitua a palavra “oração” por “diálogo”, por “conversa” com o Senhor. Ande com Ele, esteja com Ele, fale com Ele, pergunte a Ele, adore-O, seja Seu amigo! E na Quaresma faça isso mais vezes, intensifique esse diálogo! Lembre-se que antes mesmo de você desejar conversar Ele, Ele já está buscando dialogar com você. Basta ler e rezar o Salmo 138 para tomar consciência dessa realidade: “Senhor, tu me sondas e me conheces”. Primeiro ponto: a oração nos coloca para dentro porque acontece no coração e nos coloca para fora porque nos faz tomar consciência de que Deus sempre está vindo ao nosso encontro.

Substitua a palavra “jejum” por “despojamento”. Quando você jejua, o seu corpo e a sua mente passam por uma mudança interessante: primeiramente, eles sentem a falta de alimento; depois, eliminam o que é prejudicial (gorduras e toxinas); e, por fim, identificam que podem manter o seu bom funcionamento com menos e mais saudáveis alimentos. São Paulo afirma que somos “corpo, alma e espírito” (1Tes 5,23). Ora, se o seu corpo e a sua mente (alma), durante o jejum, passam por esse movimento, também o seu espírito, que é o espaço interior da sua relação com Deus, movimenta-se. O jejum da Quaresma é um despojamento total (e não só corporal): pare de consumir coisas que afastam você do Senhor; comece a eliminar os resíduos destas coisas que ainda lhe fazem mal; e, por fim, tome consciência de que apenas Deus basta! Segundo ponto: o jejum nos coloca para dentro porque gera um desconforto interior para um processo de cura e nos coloca para fora porque nos faz selecionar melhor as coisas, as ideias e os fatos que nós colocamos para dentro de nós mesmos.

Substitua a palavra “esmola” por serviço. A Quaresma é um tempo para revisar a sua missão. Para isso, basta uma pergunta: quem você tem servido? Para quem você tem transbordado aquilo que de melhor você tem em si? A ajuda financeira é muito importante e é nosso dever de cristãos sustentar aqueles que passam por inúmeras dificuldades. No entanto, a ajuda financeira é apenas uma das formas de servir aos irmãos. O que você pode fazer a mais nessa Quaresma? Talvez a sua questão seja a mesma de Moisés: “Quem sou eu para ir ao faraó e fazer sair os israelitas do Egito?” (Êxodo 3,11). Não se preocupe, porque a sua “esmola” mais efetiva é a “esmola” daquilo que você pode fazer pelos irmãos e irmãs para servi-los e isso é parte da sua identidade, de quem você é! E nossa partilha, dízimo, ofertas ou coletas precisam ser expressões alegres do nosso amor e de nosso espírito de serviço. Terceiro ponto: a esmola nos coloca para dentro porque nos faz compartilhar com as pessoas o que temos de melhor e nos coloca para fora porque nos faz servir na caridade, na alegria e na coragem dos filhos e filhas de Deus.

Como você pode ver, a Quaresma e os exercícios da oração, do jejum e da esmola não são fins em si mesmo, mas meios para favorecer nossa conversão e promover o desenvolvimento do Reino de Deus! Não há sentido permanecermos apenas nas práticas pelas práticas, mas deve haver um outro sentido, que é justamente a nossa conversão e santificação em vista da missão evangelizadora, que nos levará a todos a uma viva, profunda e transformadora experiência com o Cristo que ressuscitará na Vigília Pascal!

E como a Quaresma é meio e não fim, a Igreja no Brasil nos insere numa motivação que também é meio e nos ajuda a viver a oração, o jejum e a esmola. Trata-se da Campanha da Fraternidade, que neste ano de 2021 tem como tema “Fraternidade e diálogo: compromisso de amor” e como lema “Cristo é a nossa paz: do que era dividido fez uma unidade” (Efésios 2,14a).

O objetivo geral da CF 2021 é despertar para o sentido da vida como dom e compromisso, recriando relações fecundas na família, na comunidade e na sociedade, à luz da Palavra de Deus. Ora, o que realiza a oração em nós senão nos fazer tomar consciência de que fomos criados à imagem e semelhança de Deus (cf. Gênesis 1,26), de que a nossa vida é um dom precioso e eterno, querido e cuidado por Deus? Essa experiência só é vivenciada na oração e não em teorias. Que faz o jejum em nós senão recriar as nossas relações na família, na comunidade e na sociedade, rejeitando os sinais de morte, de violência, de exclusão, o individualismo, o consumismo e uma cultura que descarta as pessoas como se fossem coisas? Que faz a esmola senão nos colocar em unidade e diálogo respeitoso com os irmãos e irmãs quando compartilhamos a fé, o serviço e a prática da caridade?
A Campanha da Fraternidade 2021 é ecumênica e tem como objetivo geral o diálogo amoroso e o testemunho da unidade, inspirados no grande e eterno amor de Cristo por toda a humanidade. Infelizmente em nossa realidade ainda presenciamos os efeitos negativos da divisão entre os cristãos. Antes de sua Paixão e Morte, Jesus rezou ao Pai, dizendo: “Que todos sejam um, como tu, Pai, estás em mim, e eu em ti. Que também eles estejam em nós, a fim de que o mundo creia que tu me enviaste” (João 17,21). A unidade dos cristãos também é fruto de nossa oração, jejum e esmola, porque não é mera “união de pessoas que pensam e creem da mesma forma”. A comunhão e a unidade são experiências do amor de Cristo derramado em nossos corações. Daí decorre, a partir de nosso interior, o sentimento de amar e ser amado mesmo sabendo que meu irmão ou minha irmã pensa e crê diferente de mim.

Que nossa experiência de unidade com os irmãos e irmãs de outras igrejas cristãs, seja para todos nós um meio eficaz para celebrarmos a ressurreição de Cristo, Cabeça da Igreja “Una, Santa, Católica e Apostólica”; sim, una na diversidade de seus membros, e é pela unidade que o mundo crerá que Jesus Cristo é o Filho de Deus, nosso Senhor e Salvador!

 

ORAÇÃO DA CAMPANHA DA FRATERNIDADE ECUMÊNICA – 2021

Deus da vida, da justiça e do amor, Nós Te bendizemos pelo dom da fraternidade e por concederes a graça de vivermos a comunhão na diversidade. Através desta Campanha da Fraternidade Ecumênica, ajuda-nos a testemunhar a beleza do diálogo como compromisso de amor, criando pontes que unem em vez de muros que separam e geram indiferença e ódio. Torna-nos pessoas sensíveis e disponíveis para servir a toda a humanidade, em especial, aos mais pobres e fragilizados, a fim de que possamos testemunhar o Teu amor redentor e partilhar suas dores e angústias, suas alegrias e esperanças, caminhando pelas veredas da amorosidade. Por Jesus Cristo, nossa paz, no Espírito Santo, sopro restaurador da vida. Amém.

Deus vos abençoe e vos guarde de todo o mal!

+Celso Antônio Marchiori
Bispo de São José dos Pinhais